A Recaída. Porque o que é bom a gente nunca abandona!!!
“Flap, flap, flap, flap”. Foi esse o som que ouvi assim que abri o meu baú de estimação, morrendo de vontade de ouvir os meus lps (isso mesmo, ainda tenho lps!), de Siouxsie and The Banshees....
Lá estava eu, uma ex-morcega em franca recuperação, indo de encontro ao meu passado musical, muitíssimo influenciado pelo som dessa banda inglesa, que entre tantos outros grupos dos anos 80 (afinal de contas eu era uma adolescente nesse período), foi um dos que mais me impressionou.
E assim um dos meus maiores objetivos era conseguir mais discos, maiores informações, tudo que fosse possível sobre a Siouxsie. Porém, meu mundo era completamente “analógico” e isso dificultava muito as coisas... Não existia nada de internet, muito menos banda larga. Google? Soulseek? I-tunes? Esquece!
O jeito era mesmo se descolar com a outra “worldwide web” disponível naqueles tempos: “www.amigos.com”, e isso acontecia da seguinte maneira: juntava-se uma turma de pessoas tão interessadas como eu em algum grupo ou cantor/cantora, esse grupo se reunia (normalmente no centro de São Paulo, em frente de alguma loja de disco, e/ou lanchonete), para trocar qualquer “material” possível.
Material esse que poderia variar de recortes de revistas e com muita sorte, reportagens completas sobre o “ídolo” em questão, a fitas k-7 (!!!) com gravações de discos e assim por diante... Tenho guardadas ainda várias fitas que consegui dessa maneira, não me desfaço nem sob tortura!
Através desses encontros consegui muita informação mas o mais valioso mesmo foram os dois amigos que fiz nessa época e estão comigo até hoje. Mas qualquer novidade era valiosíssima e não importava que fosse apenas um mísero recorte, com uma foto péssima ou mesmo algum artigo de qualquer revista importada. Ah sim, texto em inglês? No problem! Nada que algumas horas debruçada sobre o texto com a ajuda de um super dicionário “Michaelis” não resolvesse... E foi dessa maneira que me tornei expert na tradução não só das reportagens como também das canções de Siouxsie e também conheci mais profundamente a história dessa banda, tão crucial para a formação de minha bagagem musical e (por que não dizer?), na formação de minha própria personalidade.
Em 1976, na Inglaterra, Susan Dallion era uma das famosas groupies dos Sex Pistols, mas inspirada com o ideal punk ainda pulsante (o famoso “do it yourself”), juntou a sua turma (que incluia o baterista Sid Vicious, antes de entrar para o Sex Pistols e Severin/Steven Bailey) e montou sua própria banda, a “Siouxsie and the Banshees”. Nesse início, Siouxsie e Severin eram mesmo punks de carteirinha, com direito a todos os alfinetes possíveis, além de muitas roupas de couro e vinil, no maior estilo fetichista sadomasoquista (um charme), e Siouxsie eventualmente fazia topless, muito polêmicos por sinal.
Existe uma história-lenda que um “passante” em Paris a esbofeteou por conta disso...people are strange! Todo esse visual era algo que me chamava muito a atenção. Eu simplesmente amava esse estilo diferente e glamouroso da banda, o tipo de maquiagem que a Siouxsie fazia era muito diferente de tudo que eu conhecia e isso tudo me atraia muito.
A ponto de muitos anos depois ainda me sentir influenciada e tentar ir para a balada com um visual ao estilo de Siouxsie com maquiagem, roupas de couro e tudo o mais, nem preciso dizer que não consegui nem sair do elevador daquele jeito, porque sob protestos, tive mesmo que voltar para casa e limpar a cara... E mesmo naquela época (a “cold wave”), não havia nenhuma outra banda com uma vocalista tão Exótica, de personalidade tão marcante e extravagente...
Conseguir os primeiros discos era o mais difícil, mas também era o que rendia os momentos mais prazerosos nessa aventura toda. Minha introdução musical (assim como a de muita gente) ao universo de Siouxsie, aconteceu com a coletânea de singles “Once Upon a Time”, mas nunca esquecerei da primeira vez que ouvi “Kaleidoscope” (disco que foi lançado em 1980 e chegou mais tarde aqui no Brasil), que nos brindava com dois hits (“Happy House” e “Christine”). Mas o momento mais saboroso era descobrir o poder de canções como “Trophy”, “Skin” e em especial “Paradise Place”, onde Siouxsie canta: “You can hide your genetics under drastic cosmetics, but this chameleon magic is renowned to be tragic”, e isso muito tempo antes dessa ditatura estética que vivemos, onde implantes de silicones e lipoaspirações são feitos como se fosse uma simples ida ao cabeleireiro, se tornar rotina em nossas vidas...
Essa energia toda era renovada a cada novo detalhe adquirido, uma reportagem especial, um vídeo clip gravado, uma notícia fresquinha, um outro disco... Porque era um prazer inenárravel ouvir canções que provavelmente nunca tocariam numa rádio FM, e infelizmente, nunca tocaram mesmo. Um dia desses ouvi numa rádio de internet uma dessas canções e acreditem: a emoção desvairada foi a mesma! Corri ligar para um amigo berrando: “Você não acredita! Está tocando ‘Dazzle’ no rádio!”. Mas nem sempre era raro ouvir músicas da banda no rádio. O disco “Tinderbox” foi lançado em 1986 e nesse mesmo ano Siouxsie tocou pela primeira vez aqui no Brasil (os shows foram abertos por Plebe Rude e Inocentes), quem foi não esquece, porque foi “o show” já que a banda estava em ótima forma, auge da carreira mesmo. Infelizmente não participei dessa festa, e tudo que sei sobre o ocorrido foi através de resenhas que li em revistas, em especial a Bizz (lembram?). Ah, sim! Encontra-se nesse disco uma das mais conhecidas e famosas canções da banda por aqui: “Cities in Dust”, canção muito remixada e tocada até os dias de hoje, nos devidos inferninhos, claro. Tenho um amigo que jurava que entendia e cantava o refrão da seguinte maneira: "...ooooohh uuooh, oh your city got noooo uuhh, my friend", ah esses morcegos...

Já em 1995 a história foi diferente... A banda lança “The Rapture”, que viria ser o último disco da banda. Considerado por muitos um dos melhores discos dos Banshees, “Rapture” tem belíssimas canções, algumas com um aspecto bem “dark” ainda como “Rapture” e “Not Forgotten”.
Nesse ano a banda excursionou e veio ao Brasil pela segunda vez e eu não perdi a chance e participei desse acontecimento, claro! Acho que dá prá imaginar a emoção: eu basicamente passei minha adolescência inteira devotada ao universo de Siouxsie e finalmente estava ali, com a oportunidade de vê-los ao vivo. Foi maravilhoso! Vivenciar aquilo tudo, a banda super entrosada tocando, Siouxsie com sua maravilhosa presença de palco foi uma emoção e tanto! Mesmo não sendo aquele show de 1986, no melhor momento da banda, para mim foi a realização de um sonho... um sonho que me acompanhou por anos e anos...
Depois desse disco, a banda encerrou oficialmente suas atividades. Siouxsie e seu marido Budgie continuaram com o projeto “The Creatures” e Severin participou de trilhas para o cinema. Mas quando menos se esperava a banda se reuniu para uma breve e inesperada aparição. Isso aconteceu em Abril de 2002, quando a banda fez uma micro turnê intitulada “7 Year Itch Tour", nome que faz alusão aos sete anos de separação da banda, que acabou por render um cd e um dvd com as as gravações ao vivo que foram feitas no “The Shepherds Bush Empire”, em Julho de 2002, em Londres.
Uma biografia oficial foi lançada em 2003: http://www.hottopic.com/store/product.asp
E tudo que sei é que Siouxsie e seu marido/parceiro musical Budgie, vivem na região francesa de Lot com seus gatos e continuam a desenvolver seu projeto musical The Creatures. Acho que vale a pena acompanhar pelo site a possibilidade de algum retorno ou novidades.
O endereço do Creatures é http://www.thecreatures.com.
Outro site muito interessante com biografia e detalhes sobre todos os álbums é o http://www.angelfire.com/moon/darkchamber.
Ainda hoje me sinto muito envolvida musicalmente com o universo de Siouxsie e seus Banshees,
mas isso me leva para ambientes confortáveis e familiares, nos quais danço, canto e me deixo levar
pelo grito da Banshee...
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